Racismo e identidade latino-americana - Por Maiara Oliveira*
Por Renam Brandão, sexta 14 abril 2006 às 00:37 :: Política :: #37 :: rss
A participação em um programa de intercâmbio, com o objetivo de fazer uma troca de experiências culturais e interdisciplinares sobre relações raciais e desigualdade social entre universidades brasileiras e universidades norte-americanas, possibilitou estar por um curto período em solo norte-americano.
O Brasil e os EUA são sociedades com contextos políticos bastante distintos (periferia capitalista versus a "nova Roma americana"), com índices sociais demasiadamente desiguais, sociedades que historicamente adotaram caminhos diferenciados na consolidação de suas instituições democráticas, mas que entretanto apresentam, mesmo que em graus diferenciados, desigualdades sociais e as opressões de classe, raça e gênero - uma similaridade que o próprio sistema capitalista as impõe.
Apesar de possuir uma trajetória marcada por uma série de lutas contra o racismo, com um histórico inclusive muito mais avançado do ponto de vista da garantia de direitos sociais para a população negra, a sociedade norte-americana ainda está longe de ser um paraíso racial.
Por exemplo, em relação a sua composição étnica, as universidades norte-americanas também enfrentam um apartheid racial. As universidades negras que foram cridas em um contexto importante de consolidação dos direitos cívis dos negros nos EUA, e se consolidaram como uma política afirmativa importante para inclusão de uma parcela singnificativa da população, com este perfil racial passam hoje por situações financeiras bem mais delicadas que o conjunto das outras universidades, isso devido às dificuldades que elas possuem em receber incentivos governamentais, o que revela as marcas do racismo institucional norte-americano.
Sobre a estruturação e organização do ensino, as universidades norte-americanas em sua grande maioria não se constituem como espaços de reflexão e de elaboração críticas sobre a sociedade. Ao contrário, são centros formadores de excelentes profissionais para o mercado de trabalho, porém produzem um conhecimento extremamente fragmentado, incapaz de ter uma visão do todo. Isto torna o papel que desempenham junto a outras instituições e indivíduos, no que diz respeito à intervenção social, quase insignificante.
Precisamos combater este modelo e evitar que ele possa se consolidar nas instituições de ensino brasileiras, assegurando que a produção do conhecimento esteja a serviço da melhoria da vida do povo.
A participação da sociedade nos processos políticos é bastante reduzida no EUA. A grade maioria dos cidadãos não participa dos processos eleitorais e os índices de participação são mais reduzidos ainda no caso da juventude e dos negros. A cultura juvenil norte-americana não agrega elementos como a participação de organizações coletivas. As irmandades ou fraternidades de jovens representam a grande maioria das organizações juvenis existentes. Estas organização geralmente se constituem como verdadeiros clubes de amigos, sem qualquer tipo de intervenção ou participação na vida política do país.
Em relação à condição diferenciada dos grupos raciais, é significante ressaltar que a população latina que vive nos Estados Unidos é tratada como um grupo racial diferenciado dos negros e brancos americanos. Colombianos, cubanos, argentinos, mexicanos, dominicanos, chilenos, bolivianos, são muitos e das mais diversas partes da América Latina. Eles são a mão-de-obra mais barata no mercado de trabalho e encontram-se sob muitos aspectos em condições muito mais desfavoráveis que a população negra.
Pode parecer contraditório, mas é possível viver nos Estados Unidos e conhecer de perto a cultura latina. Existem bares, vendas, cafés e até bairros inteiros onde as pessoas falam apenas espanhol, onde as músicas tocadas variam entre o merengue, salsa ou cumbia, e onde as datas da independência de cada país latino-americano são comemoradas com festas de rua.
Esta experiência trouxe-me a problemática de que o Brasil compartilha pouco dessa cultura e que precisa resgatar a sua identidade latino-americana. A busca e consolidação de uma identidade comum poderiam ajudar os países latino-americanos a fazer frente contra as opressões sociais e culturais geradas pela globalização e os grandes impérios capitalistas.
A tese do grande revolucionário cubano José Martí era de que nenhum povo pode enfrentar as suas dificuldades se não estiver enraizado na sua história, na memória de seus antepassados.
O Brasil precisa conhecer o Brasil. Reconhecer suas raízes indígenas e negras, valorizar sua história e cultura popular, resgatar o seu sentimento de pertencimento a grande nação latino-americana. Só assim, através do reconhecimento de sua identidade, o nosso país poderá fazer frente às injustiças e opressões que afligem o seu povo e compreender plenamente sua importância geopolítica para o conjunto das América Latina.
Os países latinos possuem uma trajetória comum de lutas pela sua independência frente aos seus primeiros colonizadores. Não podemos permitir sermos recolonizados pelos novos impérios modernos criados pelo capitalismo. Precisamos, baseados em nossa identidade aguerrida, consolidar a autônomia e independência de nossas nações latino-americanas, construindo coletivamente as contra-molas de resistência ao Neoliberalismo.
* Maiara Oliveira, diretora de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes.



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